“Para alguns a tampa de um bueiro é um travesseiro.” Ju.
Sigo pela rua onde passam por mim apressadas como formigas, dezenas de pessoas indo apagar seus incêndios.
A dois passos toco no braço de quem me acompanha e digo espera…
A minha frente a insignificância se move rapidamente com braços fortes de uma comida que não come e de uma vida que não vive apenas segue! Com dedos ágeis ele abre a tampa do bueiro e tira de dentro uma manta sequinha porém não muito aseada.
Vai chover!!! E é preciso salvar o nada que sem tem! O roupeiro de muita gente está abaixo do salto do desdém.
Esperei… que a fome, o banho postergado há dias a indignação com certeza! E tantas outras opiniões que eu não pude ouvir … abrisse o bueiro para pegar seu único bem!
Me pergunto agora que nome ele tem?
Quando uma senhora avantajada passa ao meu lado e se constipa, fazendo cara feia pra mim. Afinal de contas eu estava parando a via… das formigas migratórias para “proteger” a cena linda que Ela não via.
Atrapalhando a rotina da bela vida que ela deve ter, dando atenção e respeito a quem não tem vida!
Devia ter dito baixinho…
“Cara feia pra mim é fome!” Mas a verdadeira fome não tinha cara feia nem sobrenome. Se preocupava naquele momento em ser ágil para não ser estorvo a ninguém. Seguiu seu caminho sem nem notar quem lia sua vida em silêncio, pela fresta de um olhar.
Depois do espetáculo ( pelo menos pros meus olhos) todos seguimos; é significante saber parar, olhar e respeitar o pequeno instante de 5 segundos da nobre vida de quem passa desapercebido aos olhos do mundo.
A gente se cura… quando é capaz de olhar pro lado.
” …pensamos que nosso sofrimento é pessoal. Estamos fechados ao sofrimento da humanidade – Krishnamurti.”
